Cuidar de toda a gente pode ser uma forma de não cuidar de si.
À primeira vista, parece uma contradição.
Como pode alguém que está constantemente a ajudar os outros estar, ao mesmo tempo, a abandonar-se a si própria?
No entanto, esta é uma realidade mais comum do que imaginamos.
Muitas pessoas passam a vida a resolver problemas, a apoiar familiares, a ouvir amigos, a antecipar necessidades e a garantir que todos estão bem.
E, por fora, parecem fortes.
Parecem generosas.
Parecem capazes.
Mas por dentro sentem-se cansadas, sobrecarregadas e, muitas vezes, perdidas.
Quando cuidar dos outros se torna uma prioridade absoluta
Ajudar os outros não é um problema.
A empatia é uma qualidade importante.
O problema surge quando o bem-estar dos outros passa sistematicamente à frente do nosso.
Quando dizer "sim" aos outros significa dizer "não" a si própria.
Quando o descanso gera culpa.
Quando colocar limites parece egoísmo.
Quando as necessidades dos outros são sempre mais importantes do que as suas.
Com o tempo, este padrão deixa de ser uma escolha consciente e transforma-se numa forma automática de viver.
O que está realmente por trás deste comportamento?
Muitas vezes, não é apenas bondade.
É medo.
Medo de desiludir.
Medo de ser rejeitada.
Medo de criar conflitos.
Medo de não ser valorizada.
Algumas pessoas aprenderam, desde cedo, que receber amor, atenção ou aprovação dependia da sua capacidade de cuidar, ajudar ou corresponder às expectativas dos outros.
Sem se aperceberem, passaram a associar o seu valor pessoal à sua utilidade.
E quando isto acontece, cuidar dos outros deixa de ser apenas um gesto de carinho.
Passa a ser uma forma de garantir segurança emocional.
O problema de viver sempre para os outros
Quando uma pessoa passa anos a olhar para fora, deixa de olhar para dentro.
Deixa de perceber o que sente.
Deixa de reconhecer aquilo de que precisa.
Deixa de saber o que deseja.
Muitas mulheres chegam a um momento da vida em que se apercebem de algo inquietante:
"Já não sei quem sou para além dos papéis que desempenho."
Mãe.
Companheira.
Filha.
Profissional.
Cuidadora.
Mas onde ficou a mulher por trás de tudo isso?
Cuidar de si não é egoísmo
Existe uma ideia profundamente enraizada de que colocar-se em primeiro lugar é um ato egoísta.
Mas a verdade é exatamente o contrário.
Quem vive permanentemente esgotada tem cada vez menos para dar aos outros.
Cuidar de si não significa abandonar ninguém.
Significa reconhecer que as suas necessidades também importam.
Significa compreender que o seu valor não depende apenas daquilo que faz pelos outros.
E significa perceber que não precisa de se anular para ser amada, respeitada ou aceite.
Talvez a pergunta não seja "Como posso ajudar mais?"
Talvez a pergunta seja:
"O que é que eu preciso neste momento?"
Pode parecer uma pergunta simples.
Mas para muitas pessoas é uma das mais difíceis de responder.
Porque durante demasiado tempo estiveram ocupadas a cuidar de toda a gente.
E esqueceram-se de cuidar de si.
Cândida Oliveira
Terapeuta • Hipnoterapia
www.candidaoliveira.pt

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